banner_header.jpg

A RELAÇÃO ENTRE A EDUCAÇÃO, A POLÍTICA E O PODER SOBERANO

 

(publicado _ Jornal Ótimo, 18 de setembro de 2015. Ed. 1431, pag17 / Coluna Pensando Bem... )

 

Ao refletirmos a sociedade a partir do sistema educacional, identificamos um paradoxo no que concerne a uma educação direcionada para a constituição da cidadania e, ao mesmo tempo atendendo as expectativas de uma formação preparatória para o mundo do trabalho.

O paradoxo em questão se estabelece na contemporaneidade, na medida em que, a técnica assume um fim em si mesmo e, na dinâmica do dia-a-dia das escolas a sociedade impõe sobre os jovens diversas demandas para a sua inserção no mundo material da técnica e, por extensão do trabalho. Tal condição apresenta-se em certa medida desvinculada de uma educação que tenha como fim, o acesso a informação, ao conhecimento humano e científico necessário para o desenvolvimento de atitudes inovadoras, criativas e, empreendedoras. Esta realidade, ausente da reflexão nas escolas, entre os educadores e, na própria sociedade tem distanciado os estudantes daquilo que é a proposta original da educação na modernidade, que é a preparação do ser humano para a cidadania, a saber, ação política no que diz respeito a autonomia no protagonismo no fazer social em suas prerrogativas políticas, econômicas e culturais.

Esta condição paradoxal necessita ser debatida pela sociedade brasileira de forma ampla e irrestrita, se quisermos proporcionar por meio da educação uma sociedade complexa e desenvolvida. Ou dito de outra forma, análise esta que necessita transcender o senso comum e a miopia política, no que diz respeito à profanação deste modelo de sociedade que tem na escola um dispositivo de manutenção do poder hegemônico e, que concebe os estudantes como recursos na dinâmica das sociedades de massa de plena produção e pleno consumo.

A partir do reconhecimento, da necessidade de colocarmo-nos diante dos desafios inerentes da dinâmica do dia-a-dia da escola é que, se poderá pensar uma educação voltada para a cidadania. Assim, por meio de ações criativas no envolvimento da comunidade educativa escolar é que se fortalecerá a vitalidade da prática política no âmbito local, tornando possível enfrentar este desafio, que não assume a forma material, que não tem cor, tão pouco cheiro, mas que se apresenta na possibilidade de mudança de um tempo que vêm a cada nova geração. Situação esta que, não nos permite vivermos de forma estática, exigindo assim de cada indivíduo em sociedade uma postura crítica e uma efetiva participação nas relações sociais.

Conquanto, é na ausência desta participação dos indivíduos na política local que se trava o processo de formação das crianças e jovens, condicionando-os em um modelo de escola que reproduz um campo de controle, bem como, de reprodução da apatia social, da ausência de iniciativa e de empreededorismo. Sistema educacional que se estrutura na sobreposição da técnica e do mundo do trabalho sobre a cidadania. Ou dito de outra forma, sistema educacional ineficiente e ineficaz no desenvolvimento de uma educação para cidadania, tanto quanto para o mundo trabalho.

Sob todo estes pressupostos, torna-se imprescindível a manutenção da formação política nas escolas, a partir de uma dinâmica que envolva a comunidade educativa, e por extensão que se reverbere na vida pública da cidade. Somente com a participação ativa do cidadão na vida pública - na política - é que pode compreender e intervir com sensibilidade no movimento das mudanças da vida social. Pois este processo é dinâmico e se apresenta nas formas culturais, econômicas e políticas e, deve se contrapor ao poder hegemônico padronizado e burocratizado imposto pelo Estado, que de forma coercitiva reprime a vontade e a liberdade dos indivíduos.

Portanto, a partir da percepção de que a escola deve ser um processo de preparação da criança para a autonomia na vida em sociedade é que o filósofo contratualista franco-suiço Jean-Jacques Rousseau (1712/1778) apresenta a relação entre: “Educação, Política e Poder Soberano”, por meio da publicação concomitante das suas obras: “Emílio” e “Do Contrato Social”. Para Rousseau, o poder soberano é entendido como a ação do cidadão na comunidade política. Para o pensamento rousseauniano, isso só será possível mediante a formação da criança em um cidadão autônomo, um agente político capaz de participar da sociedade de forma crítica e emancipada, livrando-se da corrupção imposta pelo poder hegemônico.

Este processo político com início na escola tem por objetivo afastar a criança da corrupção social, garantindo que este ser posteriormente faça parte aquilo que definimos como cidadania e que, Rousseau chama em seu tempo, de vontade geral na formação do poder soberano. Pois para este pensador, em uma sociedade que exista indivíduos críticos e engajados com a política local, se garantirá a vitalidade da democracia, bem como, permitirá que estes indivíduos gozem com autonomia da liberdade civil, pois estes obedeceriam às leis sociais que eles mesmos criaram como emanação do poder soberano.

Neste sentido, a escola assume papel central na oxigenação da política na sociedade, pois ela deve garantir a formação das crianças e jovens em cidadãos atentos ao movimento temporal, próprio de cada nova geração. Ou seja, a partir deste mosaico de variáveis, a educação se apresenta como aquilo que pode alienar e travar a estrutura social a partir de um projeto de poder hegemônico ou, por meio de uma educação emancipatória, poderá revitalizar as forças políticas locais, fortalecendo o ethos político do poder soberano.

 

SANDRO LUIZ BAZZANELLA

Professor Filosofia da Universidade do Contestado - UnC

Coordenador Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional

Líder Pesquisador PIVIC/UNC

Líder do Grupo de Pesquisa em Ciências Humanas/Giorgio Agamben - CNPq

 

WILSONEY GONÇALVES
Acadêmico de Ciências Sociais da Universidade do Contestado - UnC

Pesquisador PIVIC/UnC

Membro do Grupo de Pesquisa em Ciências Humanas/Giorgio Agamben - CNPq

Membro do Grupo de Pesquisa Descentralização e Federalismo - CNPq